Tudo começou como uma brincadeira, mal poderíamos saber que se tornaria real. Eu e minha irmã Renata somos do interior, moramos em uma cidadezinha muito pequena a alguns quilómetros da capital, somos de uma família de classe média alta, nossos pais são grandes empresários conhecidos na cidade, eles vivem viajando por isso eu e minha irmã somos muito ligados, saímos juntos para todos os lugares e compartilhamos os mesmos amigos. Coisas estranhas começaram a ocorrer a cinco semanas atrás, estávamos numa festa na cidade em comemoração a sua padroeira, chegamos cedo na festa, era em uma praça na cidade, a maior praça, patrocinado pelos meus pais com o prefeito, tínhamos que marcar presença ao lado dos nossos pais, ficamos em um camarote para ver toda a folia de longe, reservei mais 3 lugares junto a nós, para os nossos três melhores amigos que estavam a chegar, o local começou a encher e nada dos meus amigos chegarem. Renata já tinha começado a beber e me ofereceu uma bebida, a musica alta não me deixava ouvir nada, só a gritaria da multidão se formando lá em baixo, não demorou muito e os meu amigos chegarão. Caio, que era muito estudioso, tirava as melhores notas em nossa escola, Isadora que era a melhor amiga da minha irmã e Davi meu melhor amigo sempre compartilho meus momentos com ele.
Nos juntamos e saímos do camarote para bebermos, paramos em uma barraquinha, Davi conhecia o dono e foi a maior festa, arrumamos uma mezinha e ficamos ali bebendo e conversando, o cheiro da chuva estava no ar, fazia pouco tempo que tinha parado, eu ali com meus amigos bebendo, o tempo passou rápido nem deu para sentir o momento, quando percebi a mesa já estava toda ocupada por garrafas vazias de cerveja, como estávamos todos embriagados, Davi que era o doidão da turma falou pra gente de um tal de Benflogin, era um remédio para a garganta que quando tomado em excesso causa alucinações e insónia, ele falou que já tinha tomado com outros amigos e que a sensação era ótima, ele ficou falando até nos convencer de ir numa farmácia comprar. Decidimos então aproveitar e irmos todos dormir na casa de Isadora (ela tinha oferecido isso mais cedo, mas ninguém queria), eu falei para eles que eu e Rê (apelido da minha irmã) íamos falar com nossos pais no camarote, fomos eu e ela até lá, tivemos que disfarçar e falar de longe para eles não perceberem o grau de embriagues que estávamos, eles deixaram logo, desde que eu ficasse junto da minha irmã e tomasse conta dela, voltamos a mesa e já estavam todos prontos para sair.
A casa de Isadora não era muito longe dali, então fomos andando, e aproveitamos para passar na farmácia, era o que Davi tanto queria, voltamos para o caminho da casa de Isadora deixamos para tomar o remédio na casa dela, começou a chuviscar, fomos andando na chuvinha rala e conversando sobre coisas inúteis e abstractas, ninguém falava coisa com coisa, então foi quando Caio puxou uma conversa sobre uma velha lenda da região, contada pelos anciãos da nossa cidade, apesar de nos lembramos dela, pois contavam quando nos éramos pequenos, continuamos ouvindo, Caio falou que tinha estado na biblioteca da cidade e tinha lido um livro estranho sobra essa lenda, o título do livro era Execrável e contava detalhadamente essa historia, dizia o livro e os anciãos que nos séculos passados houve um culto na nossa cidade, um tipo de religião que dominava a grande maioria da nossa cidadezinha, os participantes se reuniam em um terreno plano perto de um cajueiro gigante por trás do cemitério, dizia o livro que coisas macabras eram praticadas como culto por aquela gente, não se sabe o verdadeiro motivo para aquelas coisas, o livro terminava com apenas 6 páginas, era um livro peculiar, não se sabe ao certo como tudo isso acabou só sabemos que de uma hora para outra todos os praticantes desse culto sumiram e com eles o culto desapareceu, ninguém sabe como, nem porque.
O tempo estava começando a esfriar e nós ainda não tínhamos chegado à casa de Isadora, eu levava muitos tombos naqueles paralelepípedos que calçavam toda a rua, essa historia deixou as meninas assustadas, então aceleramos o passo e chegamos à bendita casa. Os pais de Isadora não estavam eles tinham ido visitar a família na capital, então estávamos sós, Davi pegou o remédio e mandou agente fazer uma filinha para tomá-lo, cada um tomou 10 comprimidos, ele falou que demorava aproximadamente meia hora para o remédio fazer efeito, então todos nós fomos para o quarto de Isadora conversar e esperar o bendito “efeito” entramos e nos sentamos no chão, fizemos uma rodinha, Davi começou a falar também da velha historia, ele dizia que o avô dele uma vez falou que o coveiro do cemitério morava em uma casinha onde possivelmente foi o local do culto, ele logo chamou para a gente fazer uma visita no cemitério, mas nós não estávamos nem doidos para aceitar aquilo, às 11 horas da noite estávamos já com medo e ainda por cima bêbados. Davi ficou contando mais histórias e lendas, ele sempre querendo assustar as meninas, mas eu nem estava com medo só vendo tudo aquilo de longe e achando engraçado, 40 minutos depois o efeito do remédio estava começando a aparecer comecei escutando vozes e ruídos, logo depois tudo para onde eu olhava se desmanchava e mexia, ficamos eufóricos. Caio aproveitou para filmar todo mundo naquela situação pegou a filmadora de Isadora que estava em cima da cabeceira e começou a filmar, Rê falou que topava o convite de Davi e Isadora foi na mesma onda, só depois de dopadas elas quiseram ir, parece até que perderam o medo, eu e Caio tivemos que ir não íamos ficar ali para dormir. Davi falou que tinha ainda um dinheirinho no bolso e opinou para a gente ir comprar mais bebida para beber lá no cemitério, decidimos ir, logo já estávamos do lado de fora da casa de Isadora, ela trancou o portão e começamos a andar até o cemitério, a cidade é pequena tudo fica perto e estávamos sem carro, andamos a pé para todo canto, o cheiro de chuva e terra molhada não saia do meu nariz.
Uma neblina caia sobre a cidade e o frio que fazia àquela hora era de tremer o queixo, olhei para o relógio e marcava exactamente 0 hora, só escutava naquele momento as badaladas do sino da igreja. Rê me chama e diz que chegamos ao barzinho para Davi comprar as bebidas. Lá foi rápido, não demorou e Davi saiu com dois sacos de cerveja, continuamos andando e rapidamente chegamos à frente do cemitério, paramos um pouco, observamos o grande portão com as inicias DEP (descanse em paz) o cheiro de terra molhada aumentava, a rua estava vazia, não havia nenhum tipo de movimentação por ali, trocamos olhares e mal conseguindo andar com todas aquelas alucinações, mesmo assim entramos. O cheiro de putrefacção dominava o local, parecia que havia corpos de animais podres, as árvores eram grandes e seus galhos faziam ruídos e sombras amedrontadoras, o chão que antes era calçado por paralelepípedos não tinha mais, agora só tem terra e lama, fomos andando vagarosamente. Fui agarrado com Davi para não cair e atrás de nós vinham em filinha, Rê tentando ser a valentona, Isadora e Caio finalizando o grupo. Eu olhei direito para Caio e vi que ele ainda estava filmando a gente naquela situação decidi não contar para os outros, eles estavam tão chapados que nem perceberam. Quanto mais andávamos mais o local ficava escuro e silencioso, de repente Davi começou a falar sozinho mandando calarem a boca irem embora, disse ele que eram as vozes por causa do remédio.
A emoção de estar ali era grande, achamos um túmulo grande e sentamos para beber. Eu e Davi sentamos no túmulo, era uma grande pedra de mármore e junto de nós tinha uma árvore grande, os outros acharam umas pedras e sentaram nelas no chão, pegamos as bebidas e ficamos ali bebendo, estávamos quase entrando em um coma alcoólico e grupo, não tínhamos nem mais o que conversar, Davi como adora atiçar a gente, nos chamou para andar pelas redondezas do cemitério para tentar achar o cajueiro gigante, a primeira a se levantar foi Rê, ela puxou Isadora e terminamos andando mais. Já havíamos esvaziado as bebidas, deixamos o lixo lá e começamos a andar, fomos cambaleando e seguindo uma espécie de trilha que tinha lá. Tudo era assustador, o remédio tinha deixado a gente vendo coisas e junto com o tempo frio e em estarmos em um cemitério tudo era muito estranho, dava muito medo, tudo que eu olhava se mexia, andamos e andamos na trilha de barro. Quando Rê nos chama, dizendo que achou o tal cajueiro, ela como estava tentando ser a durona tinha ido na frente, então logo nos juntamos a ela e ela nos mostrou, realmente era um cajueiro e era muito grande, mas tinha uma coisa estranha nele, não sei se era a minha imaginação mas eu vi umas marcas estranhas gravadas neles como se fosse uma escrita mas estava muito apagada e não dava pra ler, isso estava gravado em todo o cajueiro, então a chuvinha começou de novo mas desta vez estava ventando muito forte.
Nós estávamos no meio de uma pequena ladeira e de repente Davi chama a gente e diz ter avistado um casebre bem longe, deixamos o cajueiro de lado e fomos todos em direcção do tal casebre. Isadora começou a dizer que era a casa do coveiro e começou a contar a história de novo, ela não parava de falar tinha ficado mais eufórica e nervosa, nos aproximamos de lá, o cheiro tinha mudado todos estavam sentindo uma fragrância seca, um cheiro de madeira velha e mofada, quando de repente vemos uma sombra na casa se mexer e vir para cima de nós. Caio gritou mandando a gente correr e não pensamos duas vezes nos viramos e eu vi as árvores se mexendo e vindo também para cima de mim, segurei firme na minha irmã e corri como eu nunca tinha corrido antes, sai passando por cima de tudo, não conseguia raciocinar só fazia correr e correr, quando dei por mim tinha chegado ao portão do cemitério e já estavam todos lá nervosos e sem saber o que fazer. Mal paramos e continuamos correndo quase de olhos fechados para não ver, parecia que a casa de Isadora tinha ficado mais longe, mais finalmente chegamos lá, ela abriu a porta rapidamente, entramos e fomos tentar nos acalmar, apesar do remédio ainda estar fazendo efeito, bebemos água e nos trancamos no quarto de Isadora, a noite tinha sido muito estranha, deitamos onde podia e tentamos dormir. Já era quase 2 horas da manhã, não conseguíamos dormir ficamos conversando loucuras sobre nossa noite, ainda estávamos nervosos, esperamos o dia amanhecer...